Rádio Liberdade

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Adicional Instantâneo de Conhecimento



A noção de liberdade, no senso comum, está muito atrelada à ausência de regras. Para muitos, liberdade significa “fazer tudo o que se quiser”, “sem limites”. A filosofia, já por muito tempo, se ocupa da questão da liberdade e, nos últimos tempos, tem nos mostrado cada vez mais que liberdade nada tem a ver com a realização desenfreada das vontades de cada um. Sartre já nos mostrou isso quando colocou o homem como ser livre, condenado à responsabilidade de cada escolha, e que não é responsável somente pela sua restrita individualidade, mas sim perante toda humanidade. Mesmo assim, a  filosofia de Sartre parece ainda não nos deixar claro do porque precisarmos de regras. Talvez um dos melhores exemplos para se demonstrar isso esteja na noção de controle social.
Ora, é só falarmos de “controle social”, ou qualquer outro tipo de controle, principalmente envolvendo mídias, que os defensores da “liberdade” já levantam suas bandeiras; para eles, qualquer tipo de controle é restrição da liberdade, é impor regras para restringir as liberdades. Isso não poderia estar mais equivocado, afinal, não pode haver sociabilidade sem controle; como diria John Dewey, “sem regras, não há jogo”.
Georges Gurvitch nos ajuda a esclarecer essa confusão quando, fazendo uma revisão bibliográfica a respeito do controle social, nos aponta para a ambiguidade da palavra “controle”, que tanto pode significar dominação, como também regulação. Sendo assim, o controle social não pode somente ser pensado em sua dimensão perversa, da dominação, mas também como meio de regulação dos jogos sociais. Dentro do controle social estão não só as leis, como a moral, cultura e etc.
Para percebermos isso, não é preciso ir muito longe. Ora, as leis não deixam de ser regras de controle social. Sem elas, como nos asseguraríamos (teoricamente pelo menos) que a justiça seja feita? É seguro dizer também que existem regras em todas as nossas relações sociais, sejam elas formais, como o manual de conduta de um colégio, como informais e para além das instituições, como a moral. A ideia do Wikipédia, por exemplo, é a de uma enciclopédia livre, mas isso não quer dizer que a Wikipédia não possua regras. Quem já tentou postar ou alterar um artigo lá sabe do que estou falando. Entretanto, as regras do Wikipédia não são uma restrição da liberdade, mas sim uma maneira de assegurar o bom funcionamento da ferramenta. A questão da liberdade aí é a seguinte: você tem a liberdade de alterar artigos no Wikipédia, mas, para isso, deve aceitar nossas regras, deve saber jogar o nosso jogo. Se eu tenho um blog, quem for comentar nele deve aceitar as minhas regras, assim como quem irá jogar xadrez pela primeira vez deve aceitar as regras do jogo.

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